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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Opinião sobre "As Flores Perdidas de Alice Hart" - Holly Ringland

As Flores Perdidas de Alice Hart
(Artigo de Opinião)


Autora: Holly Ringland
Título Original: The Lost Flowers of Alice Hart (2018)
ISBN: 978-972-0-03062-7
Nº de páginas: 400
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Um romance sobre as histórias que deixamos por contar e sobre as que contamos a nós próprios para sobrevivermos.

    Alice tem nove anos e vive num local isolado, idílico, entre o mar e os canaviais, onde as flores encantadas da mãe e as suas mensagens secretas a protegem dos monstros que vivem dentro do pai.


    Quando uma enorme tragédia muda a sua vida irrevogavelmente, Alice vai viver com a avó numa quinta de cultivo de flores que é também um refúgio para mulheres sozinhas ou destroçadas pela vida. Ali, Alice passa a usar a linguagem das flores para dizer o que é demasiado difícil transmitir por palavras.


   À medida que o tempo passa, os terríveis segredos da família, uma traição avassaladora e um homem que afinal não é quem parecia ser, fazem Alice perceber que algumas histórias são demasiado complexas para serem contadas através das flores. E para conquistar a liberdade que tanto deseja, Alice terá de encontrar coragem para ser a verdadeira e única dona da história mais poderosa de todas: a sua.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

     Quero começar já por dizer que, apesar de este ano estar a ser muito rico em termos de leituras (quer em quantidade, quer em qualidade), "As Flores Perdidas de Alice Hart" conquistou um lugar muito especial no meu coração.

     Alice Hart é uma menina de nove anos com uma curiosidade imensa pelo mundo, que adora dar longos passeios junto ao mar e perder-se nas páginas de um bom livro. Ansiosa pela chegada do seu irmãozinho, Alice tenta proteger-se a si própria e à mãe das tempestades incontroláveis que por vezes habitam dentro do seu pai.

     Quando uma terrível tragédia se abate sobre a família, Alice vê-se obrigada a ir viver com a avó paterna - uma desconhecida -, em Thornfield, uma quinta de cultivo de flores, onde vivem também outras mulheres que precisam de um local onde se sentir seguras. E é aí, nessa casa tão marcada pelas histórias das suas antepassadas, que a menina aprende a linguagem das flores, uma forma menos dolorosa de se comunicar.

      Alice vai crescendo e aprendendo que as flores podem ser um bálsamo para as suas feridas, até que uma nova traição vem abalar a sua estabilidade e fá-la partir em busca de si própria. Que segredos esconde o seu passado? Alcançará a liberdade que tanto deseja?

    Alice foi uma personagem que me cativou. Inicialmente, a maturidade pouco habitual numa criança da sua idade e o seu jeito peculiar de ver o mundo, aliados aos traumas de maus tratos, fizeram-me criar logo um laço empático com a menina. E depois, acompanhar o seu crescimento e o seu processo de autodescoberta, e ver o modo como as marcas que ficam de um passado doloroso acabam por condicionar o seu discernimento, fez-me gostar cada vez mais de Alice. Apreciei especialmente o facto de a autora não ter romantizado excessivamente a personagem, criando-lhe também uma faceta mais intempestiva e inconstante - em suma, bastante humana.

   Adorei conhecer não só a história de Alice, mas também a das suas antepassadas, a de algumas mulheres que procuraram refúgio em Thornfield e ainda algumas histórias aborígenes. Além disso, gostei muito de conhecer a linguagem das flores e de ver como a vida de Alice podia ser contada através delas.

     A única crítica que tenho a fazer a este livro é mesmo o facto de que gostava que o final tivesse sido mais desenvolvido. Gostava que a autora tivesse fechado a história de Alice com mais certezas e com mais detalhe, mas ainda assim fiquei satisfeita com o rumo dos acontecimentos.

    Este é um livro predominantemente melancólico e que aborda temas sérios e delicados, mas Holly Ringland trata-os com uma sensibilidade tal que acaba por transformar o triste em belo. E tudo neste livro é bonito e especial. Achei muito bem retratados o modo como funcionam os relacionamentos abusivos, bem como a fragilidade emocional e o amor cego que levam a um estado de dependência do outro, e que agravam ainda mais a situação - e faz-nos pensar em como tudo isto acaba por ser cíclico.

     "As Flores Perdidas de Alice Hart" foi, acima de tudo, uma leitura que me apaixonou. Escrito com uma sensibilidade extrema e de uma beleza pouco comum - até mesmo em termos físicos, uma edição fantástica -, mas que ainda assim nos deixa de coração apertado, este é um livro que emociona e que nos faz viajar pelas maravilhosas paisagens australianas, à medida que acompanhamos Alice na procura do seu lugar no mundo. Numa palavra: adorei!


 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Sierra Burgess is a Loser (Shannon Purser)_Sunflower

domingo, 18 de novembro de 2018

Opinião sobre "Aceitação" (Trilogia da Área X #3) - Jeff VanderMeer

Aceitação
(Trilogia da Área X #3)
(Artigo de Opinião)


Autor: Jeff VanderMeer
Título Original: Acceptance (2014)
Tradução: Casimiro da Piedade
ISBN: 978-989-773-095-5
Nº de páginas: 288
Editora: Saída de Emergência

ATENÇÃO: esta opinião pode conter spoilers de livros anteriores

Sinopse

      Será que há finalmente respostas para os mistérios da Área X? O inverno chegou à Área X, a misteriosa zona que desafia toda a lógica há mais de trinta anos e que tem resistido a inúmeras expedições que procuram desvendar os seus segredos.

     À medida que a Área X se expande, a agência responsável por investigá-la colapsa e mergulha no caos. Cabe a uma última e desesperada equipa atravessar a fronteira e alcançar a ilha remota que pode conter as respostas ao enigma. Se falharem, o mundo vai sucumbir à devastação que não para de alastrar.

   Neste último volume, a verdade sobre a criação da Área X poderá ser revelada, bem como os eventos e protagonistas que originaram a sua contaminação. Mas estarão os membros da equipa preparados para as implicações aterradoras e profundas dessas revelações?



Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Saída de Emergência em troca de uma opinião sincera


Opinião

       Começo por agradecer à Saída de Emergência pelo gentil envio do livro.

     Em "Aniquilação" e "Autoridade" mergulhámos na misteriosa Área X e acompanhámos os esforços realizados pela Extensão Sul para compreender e conter os avanços dos estranhos fenómenos que assolam aquele estranho local. Depois da forma como "Autoridade" terminou, estava bastante curiosa para ver como é que o autor ia terminar esta trilogia cheia de potencial, e ansiosa para descobrir finalmente todos os segredos da Área X. E a verdade é que... não foi bem isso que aconteceu.

       Os dois primeiros volumes desta série foram uma espécie de preparação para "Aceitação", onde as peças do puzzle se começam a juntar, mas onde também muitas delas continuam perdidas ou sem sabermos bem onde as encaixar. Mas Jeff VanderMeer guardou vários trunfos na manga e consegue surpreender neste livro, principalmente no final imprevisível e inesperado.

     Os capítulos de "Aceitação" estão divididos por vários narradores, que nos falam em diferentes perspetivas e em diversos períodos temporias, e que nos permitem encarar a Área X de uma forma mais dimensional. O facto de termos várias pessoas a contar a história, e em estilos diferentes, torna a leitura um pouco mais dinâmica, mas também mais confusa. Senti, por vezes, a falta de algumas introduções que proporcionassem um contexto pessoal, temporal e espacial do que estava a ser descrito, que me permitissem entrar mais facilmente nesse segmento da história.

    Todos os livros desta trilogia, mas em particular este volume, obrigam a uma leitura atenta, a uma concentração constante para que nenhum detalhe escape, pois tudo está orquestrado de forma a que até o mais aparentemente insignificante pormenor se revele fundamental para o entendimento da trama. A escrita de Jeff VanderMeer é soberba e extremamente rica, cheia de descrições minucosas, mas, apesar de a admirar, senti que acabou por tornar a leitura muito densa e morosa, chegando mesmo a ser cansativa. Por diversas vezes senti que faltava ritmo à história e que estava simplesmente a arrastar a leitura, sendo que nem mesmo a curiosidade me impelia a ler mais depressa.

     Neste volume, voltamos à Área X, e esse foi um dos motivos que me fez gostar mais deste livro do que do segundo, mas ainda assim não tanto como do primeiro. Em alguns dos capítulos, os níveis de tensão voltam a aumentar, uma vez que o perigo e a incerteza se vão tornando cada vez mais vincados à medida que acompanhamos algumas personagens dentro da Área X, e há alguns momentos que, só por serem tão bizarros, já fazem a leitura valer a pena.

     A verdade é que, quando terminei a leitura, me senti presa numa espécie de mix feellings: se por um lado me preencheu a sensação de dever cumprido, por outro senti que faltava algo mais para dar esta jornada por terminada. Geralmente gosto de finais em aberto, em que cabe ao leitor o papel de imaginar o final que melhor se encaixa na sua preferência, seguindo a linha ditada pelo autor. Mas, neste caso, queria mais - mais respostas, mais explicações, mais motivos e mais "o que vem depois". 

    Este livro chama-se "Aceitação", mas o autor tenta provocar em nós, leitores, exatamente a reação inversa: procura alertar-nos para a necessidade de começarmos a respeitar o planeta em que vivemos, levando-nos a refletir sobre a nossa própria fragilidade e sobre a urgência em protegermos a natureza, para que nos possamos também proteger a nós próprios, pois não somos seres independentes do meio que nos rodeia.

    A trilogia da Área X é uma leitura interessante mas complexa e exigente e que, apesar de provavelmente não satisfazer todos os leitores - por oferecer mais perguntas do que respostas -, recomendo ainda assim aos corajosos que procuram um livro diferente. Com uma escrita riquíssima, um enredo que marca pela originalidade e pela estranheza e um alerta para um futuro que se torna cada vez mais plausível, esta é uma trilogia que, por certo, não esquecerei tão cedo.

Opinião sobre outros livros de Jeff VanderMeer:
 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Radioactive_Imagine Dragons

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Opinião sobre "O Último Fôlego" (Detective Erika Foster #4) - Robert Bryndza

O Último Fôlego
(Detective Erika Foster #4)
(Artigo de Opinião)


Autor: Robert Bryndza
Título Original: Last Breath (2017)
ISBN: 978-989-890-718-9
Nº de páginas: 328
Editora: Alma dos Livros


Sinopse

    Quando o corpo torturado de uma mulher, jovem e bonita, é encontrado num contentor do lixo, com os olhos inchados e as roupas ensopadas em sangue, a inspetora-chefe Erika Foster é dos primeiros detetives a chegar ao cenário do crime. O problema é que, desta vez, o caso não lhe pertence.


    Enquanto luta para integrar a equipa de investigação, Erika envolve-se no processo e rapidamente encontra semelhanças com o assassínio não resolvido de outra mulher, quatro meses antes. Largadas ambas num contentor do lixo em parques de estacionamento diferentes, têm ferimentos idênticos - uma incisão fatal na artéria femoral da coxa esquerda... E, entretanto, é localizada uma terceira vítima em circunstâncias idênticas.


    Perseguindo as vítimas online, apresentando-se com identidades falsas, o assassino ataca mulheres jovens e bonitas de cabelo castanho comprido e desaparece misteriosamente, sem deixar qualquer pista. Como irá Erika apanhar um assassino que parece não existir?

   Enquanto decorre a investigação, outra rapariga é raptada quando esperava por um encontro. Erika e a sua equipa têm de a localizar, para não depararem com mais uma vítima mortal, e enfrentar um indivíduo terrivelmente sádico e perigoso.


   Alucinante, tenso e impossível de parar de o ler, O Último Fôlego mantém o leitor preso logo na primeira página, enquanto o livro se encaminha vertiginosamente para um final surpreendente.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Alma dos Livros em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Alma dos Livros pelo gentil envio do livro.

      Depois de "A Rapariga no Gelo", "A Sombra da Noite" e "Águas Profundas", parti para "O Último Fôlego", o quarto volume da série protagonizada pela inspetora-chefe Erika Foster, e que, apesar de não ter satisfeito completamente as minhas expectativas, foi ainda assim uma leitura muito boa.

      Uma jovem, no início da casa dos 20 anos, é encontrada morta num caixote do lixo, profundamente maltratada: o corpo espancado e mutilado indiciando a tortura de que fora alvo nos seus ultimos dias de vida, e um corte fatal na artéria femoral. 

    Após ter estado no local do crime e verificado a crueldade a que aquela mulher fora sujeita, Erika não consegue manter-se afastada do caso, assomada pelo desejo de apanhar o responsável por aquele crime hediondo. Disposta a engolir alguns sapos para pertencer à equipa que está a investigar o homicídio, a inspetora-chefe rapidamente estabelece a ligação entre o seu caso e o de uma outra jovem, encontrada alguns meses antes em condições semelhantes.

    Quando outra rapariga desaparece, instala-se então a dúvida sobre um potencial assassino em série, que utiliza falsos perfis nas redes sociais para aliciar as suas vítimas, marcando encontros com elas e raptando-as. No entanto, Erika não tem nenhuma pista para seguir, só lhe restando aguardar que o assassino cometa algum deslize - o que implica esperar que uma outra jovem corra perigo. Será Erika capaz de evitar uma nova morte?

     À semelhança de "A Sombra da Noite" - o segundo volume desta série e o meu preferido até à data -, descobrimos cedo a identidade do assassino, e temos, intercalados com a narrativa da investigação, capítulos dedicados à sua perspectiva. Isto poderia levar o leitor a perder algum interesse na história, mas Robert Bryndza já provou que consegue fazer com que este modelo resulte. No entanto, confesso que fiquei um pouco desiludida com a personalidade e motivação deste assassino. Dada a crueldade empregue nos crimes, esperava que o seu perpetrador fosse uma pessoa mais atormentada ou com motivos mais fortes, que, na sua cabeça, justificassem as suas ações. No entanto, a verdade é que se, por um lado, achei a explicação para os seus atos pouco interessante, por outro gostei que o autor fugisse um pouco àquela ideia de que os assassinos são pessoas forçosamente estranhas e com histórias profundamente dramáticas no seu passado.

    Relativamente à investigação propriamente dita, houve pormenores que não me convenceram totalmente. A trama está bem construída, mas, por vezes, senti que alguns desenvolvimentos - embora não demasiado forçados - entravam já no campo das coincidências pouco credíveis. Ainda assim, o facto de haver um assassino em série à solta - e cujo período entre os ataques se vai estreitando -, dá uma outra dinâmica à história, criando um clima de ansiedade e expectativa que impulsiona a leitura e acaba por suprimir esses aspetos menos bem conseguidos.



     Neste volume, vemos finalmente o início de um verdadeiro relacionamento entre Erika e Peterson, o que me agradou bastante. Erika é uma personagem que tem evoluído imenso, mostrando-se cada vez mais humana e revelando uma faceta mais carinhosa, mas sem nunca perder o seu espírito indomável e o seu carácter vincado. Aos poucos, tem vindo a aprender a lidar com a dor da perda e a aceitar sem medo uma nova oportunidade para ser feliz. Gostei muito de ver a ternura, a paciência e a dedicação de Peterson, respeitando sempre o espaço de Erika e compreendendo o luto e os receios da protagonista.

    Deixo uma pequena nota para o papel de destaque assumido pelas redes sociais neste livro - uma vez que o assassino recorria a estas para escolher e investigar as suas vítimas -, que convida a uma importante reflexão sobre o que nelas expomos - de forma ou não consciente -, na falsa ilusão de privacidade e controlo.

    Apesar de, na minha opinião, não ser o melhor livro da série, "O Último Fôlego" é ainda assim uma leitura viciante e surpreendente, que consegue cativar verdadeiramente o leitor. O ritmo crescente dos acontecimentos e o suspense inerentes a um bom policial, conjugados com a dimensão pessoal das personagens, faz desta uma série de sucesso, que tenho adorado ler - e a verdade é que devorei este livro! O final deixa entrever interessantes desenvolvimentos futuros para Erika, tanto a nível pessoal como profissional, e estou curiosa para ver qual a direção que o autor vai seguir em "Sangue Frio". Foi, portanto, uma leitura de que gostei bastante!


Opinião sobre outros livros de Robert Bryndza:

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: John Mayer_Free Fallin'

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Opinião sobre "Três Coroas Negras" (Três Coroas Negras #1) - Kendare Blake

Três Coroas Negras
(Três Coroas Negras #1)
(Artigo de Opinião)


Autora: Kendare Blake
Título Original: Three Dark Crowns (2016)
ISBN: 978-972-0-03036-8
Nº de páginas: 328
Editora: Porto Editora

Sinopse


    A CADA GERAÇÃO, NA OBSCURA ILHA DE FENNBIRN, NASCEM TRÊS IRMÃS GÉMEAS.


   Três rainhas herdeiras de um só trono, cada uma possuindo um poder mágico muito cobiçado. Mirabella é capaz de inflamar o incêndio mais violento ou a tempestade mais terrível. Katharine consegue ingerir um veneno mortal sem sentir os seus efeitos. De Arsinoe diz-se capaz de fazer florir a rosa mais vermelha e controlar o leão mais feroz.

   Mas para uma delas ser coroada rainha, não basta ter a linhagem certa. As trigémeas terão de conquistar o seu direito à coroa, lutando por ele… até à morte.

  Na noite em que as irmãs completam 16 anos, a batalha começa. E a rainha que sobreviver, conquistará a coroa!

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

     Apesar de ter partido para a leitura já com altas expectativas - não só pelas intrigantes  promessas da sinopse, mas também pelas fantásticas opiniões que o livro tem recebido -, a verdade é que ainda assim não estava à espera de gostar tanto como gostei. Que livro espetacular!

    Na mágica ilha de Fennbirn, todas as gerações nascem três dotadas irmãs gémeas, fadadas a crescerem separadas até completarem 16 anos, altura em que terão de competir pelo trono e pela vida, sendo que, no final, só uma será coroada.

      Katherine é uma envenenadora e cresceu com a família Arron, habituada a ver testados em si os mais variados tipos de venenos, numa tentativa de a imunizar e de lhe despertar o dom que tarda em chegar. Arsinoe, naturalista, amadureceu com os Milone, aguardando o florescer da sua comunhão com a natureza e a chegada do seu Familiar, um animal com o qual sentirá uma profunda conexão. Só Mirabella, criada pelos Westood e protegida do templo de sacerdotisas, manifestou desde cedo o seu poder de elemental no controlo exímio dos elementos, mas nem por isso a tarefa de eliminar as irmãs se torna mais fácil.

     Quando o Festival Beltane chegar, as três irmãs terão de lutar pelo seu direito à coroa até à morte... e apenas a que sobreviver será a legítima rainha de Fennbirn. Qual delas terá o que é preciso para vencer?

    Este é um livro cujo início pode ser considerado um pouco lento, uma vez que corresponde à apresentação do mundo e das personagens, mas que não achei nada cansativo, muito pelo contrário: dá tempo ao leitor para se familiarizar com o universo criado pela autora. Com o avançar da história, os capítulos vão ficando mais curtos e a leitura torna-se cada vez mais rápida e compulsiva. A escrita de Kendare combina na perfeição com o ritmo exigido pela narrativa - oferece ao leitor a dose certa de pormenores para que este consiga imaginar vividamente as cenas descritas, mas sem perder a fluidez que embala a leitura.

    O original mundo que a autora nos apresenta é complexo e está muito bem construído. Gostei muito da sociedade e das suas regras, crenças, tradições e costumes, e agradou-me o facto de o papel de destaque ser  dado às mulheres, que são o sexo forte na ilha de Fennbirn. Além disso, talvez por não ser algo muito comum num livro do género fantástico - e ainda que não seja esse o ponto fulcral da história -, achei interessante que o sistema governamental não fosse isento de pressões políticas, havendo sempre alguém capaz de tudo para satisfazer e garantir os seus interesses.

    Outro ponto de que gostei muito foi de "espreitar" pormenores das histórias de rainhas antigas. Espero que nos próximos volumes nos seja mostrado mais sobre o passado destas regentes e sobre o que há para além dos limites da ilha, no continente.

    Dada a natureza da história e o facto de apenas uma das rainhas poder sobreviver, estava à espera que a autora encaminhasse a narrativa de modo a que nos sentíssemos claramente inclinados para uma favorita desde o início. Mas a verdade é que, ao narrar a história na terceira pessoa e ao oferecer as perspetivas das três jovens, Kendare Blake arquitetou a trama de forma a que o leitor se afeiçoe por todas elas, tornando-se complicado eleger uma favorita à vitória - pois todas têm personalidades fortes e distintas, cheias de qualidades e defeitos bem explorados. Além disso, a história não se foca apenas nas protagonistas, mas também nas pessoas que interagem com elas no dia a dia, e que, para além de assumirem também elas um papel importante, acabam por nos demonstrar um outro lado das rainhas.

   "Três Coroas Negras" é um livro com uma premissa cativante, um enredo extremamente interessante e personagens muito bem construídas. Carregado de intrigas inesperadas e de reviravoltas surpreendentes, é uma excelente leitura do início ao fim! Só me resta aguardar ansiosamente que a Porto Editora publique rapidamente os próximos volumes, porque, depois deste final, a espera vai ser dolorosa! Adorei, adorei, adorei!

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Imagine Dragons_Natural

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião sobre "Águas Profundas" (Detective Erika Foster #3) - Robert Bryndza

Águas Profundas
(Detective Erika Foster #3)
(Artigo de Opinião)


Autor: Robert Bryndza
Título Original: Dark Water (2016)
ISBN: 978-989-999-338-9
Nº de páginas: 328
Editora: Alma dos Livros


Sinopse

    Debaixo de água, o corpo afundou-se rapidamente. Ali permaneceu, imóvel e imperturbável durante muitos anos, mas, lá em cima, fora de água, o pesadelo estava apenas a começar.

Quando a detetive Erika Foster recebe uma denúncia anónima informando que uma prova fundamental relacionada com um caso de narcóticos estava escondida numa pedreira abandonada nos arredores de Londres, ela manda investigar a pista. No espesso lodo das águas encontram as drogas que procuravam, mas também os restos mortais de uma criança pequena. O esqueleto é rapidamente identificado como Jessica Collins, a menina de sete anos que fizera as manchetes das notícias vinte e seis anos antes.

   Ao mesmo tempo que tenta juntar provas novas à investigação, Erika depara-se com uma família que guarda muitos segredos, uma detetive atormentada pelo fracasso e a morte misteriosa de um homem que vivia junto à pedreira. 

   Será o assassino alguém dos elementos mais próximos da menina? Há quem não deseje ver o caso resolvido. E tudo fará para impedir Erika de descobrir a verdade.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Alma dos Livros em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Alma dos Livros pelo gentil envio do livro.

      Depois de "A Rapariga no Gelo" e a "A Sombra da Noite", Robert Bryndza apresenta-nos "Águas Profundas", o terceiro livro da série Detective Erika Foster, e que se debruça sobre o caso de uma menina desaparecida.

     A trabalhar num novo departamento, Erika Foster recebe uma chamada anónima relacionada com o caso de narcóticos que está a investigar, e que indica que a droga procurada estará escondida no fundo de uma pedreira abandonada. Quando a equipa de mergulhadores começa a explorar o local, algo mais trágico acaba por vir à superfície: os restos mortais de uma criança, posteriormente identificada como Jessica Collins, uma menina dada como desaparecida 26 anos antes.

      Chocada com o triste desfecho da criança, Erika promete a si mesma descobrir a verdade por detrás do seu estranho desaparecimento e consequente assassinato. No entanto, à medida que se vai afundando no caso que, inicialmente, parecia um beco sem saída, a inspetora começa a desenterrar segredos, e há quem esteja disposto a tudo para que estes não venham à tona. Conseguirá Erika solucionar o mistério por detrás da morte da menina e dar algum descanso à família?

        Ao fim de três livros, penso que é seguro afirmar que o ponto alto de Robert Bryndza é, sem dúvida, a sua magnífica capacidade de gerir o ritmo e o suspense. O equilíbrio perfeito entre as cenas de maior ação, os impasses e a vida pessoal da protagonista fazem-nos agarrar à história, na ânsia de saber o que se seguirá.

     E a verdade é que este foi um livro que me cativou do início ao fim! O facto de o caso se centrar no desaparecimento de uma criança torna a trama mais sombria e pesada, mas, ao mesmo tempo, estranhamente atrativa. Além disso, achei super interessante acompanhar a resolução do desaparecimento de uma menina tantos anos após o acontecimento propriamente dito, principalmente quando as pistas são extremamente escassas e apontam em direções aparentemente sem saída.

    Também gostei da forma como o autor retratou o impacto que um caso desta dimensão pode ter na carreira e na vida de uma agente policial. Amanda Baker foi a inspetora responsável pelo caso do desaparecimento de Jessica, há 26 anos, e a pressão interna e mediática relativamente à falta de resultados acabou por fazer dela o bode expiátorio para o insucesso obtido, levando esta no presente uma existência decadente e desregrada.

     A disfuncional família de Jessica também assume um papel central na história, uma vez que é o ponto de conexão entre o passado e o presente, e rapidamente percebemos os danos irreparáveis causados pelo desaparecimento da menina, os segredos e as feridas ainda por sarar, mesmo passados tantos anos. Gostei bastante que o autor tivesse explorado este lado dos que ficam para trás, dos que se recusam a esquecer e dos que precisam a todo o custo de seguir em frente.

     Cada vez gosto mais da protagonista. Ainda que nos volumes anteriores tenha achado Erika um pouco fria, o fortificar das relações com os seus colegas tem mostrado uma outra faceta sua, mais humana e calorosa. Numa fase mais resolvida do luto, é bom começar a ver a sua abertura a uma possível nova relação, e é interessante ver explorado o seu lado mais frágil e carente. 

     "Águas Profundas" é um livro um pouco mais sombrio, um mistério intrigante tecido com mestria numa intrincada rede de acontecimentos, segredos e mentiras. Com o ritmo vertiginoso a que o autor já nos habituou, é um policial envolvente e surpreendente. Mal posso esperar para pegar em "O Último Fôlego"! Recomendo realmente esta série!


Opinião sobre outros livros de Robert Bryndza:

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: John Mayer_Free Fallin'

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Opinião sobre "Antes de Ires" - Clare Swatman

Antes de Ires
(Artigo de Opinião)


Autora: Clare Swatman
Título Original: Before You Go (2017)
ISBN: 978-989-6579-258
Nº de páginas: 304
Editora: Editorial Planeta


Sinopse

    Um romance para todos aqueles que acreditam no poder do amor, e que acreditam que nunca é tarde de mais para mudar as coisas.

ENCONTRA A SUA ALMA GÉMEA...
     Há pessoas que passam anos a ver o amor à sua frente antes de o descobrirem. Zoe e Ed fizeram, com mais ou menos tropeções, o seu caminho até à idade adulta, cada qual pelo seu trilho... mas sempre na mesma direção. Anos mais tarde, depois de terem navegado por empregos que não levavam a parte nehuma e caóticas partilhas de apartamentos, o amor floresce finalmente. O futuro juntos parece ponto assente...

ENTÃO ACONTECE O IMPENSÁVEL.
    Uma manhã, a caminho do trabalho, Ed é derrubado da sua bicicleta e morre. E Zoe tem de arranjar maneira de sobreviver. Mas não está preparada para abrir mão das suas recordações. Como pode esquecer os tempos felizes, o primeiro beijo, tudo o que construíram juntos? Zoe decide que tem de dizer a Ed todas as coisas que nunca disse.

SÓ QUE AGORA É DEMASIADO TARDE. OU NÃO SERÁ?

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Editorial Planeta em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Editorial Planeta pelo gentil envio do livro.

     "Antes de Ires" é um romance que começa pelo final. Zoe e Ed são um casal cuja relação está a atravessar uma fase difícil, cada vez mais à beira da estagnação.

    Numa manhã em que o clima entre os dois estava algo tenso, Ed sai para o trabalho e sofre um acidente, acabando por falecer. Quando Zoe recebe a notícia da morte do marido, sente que o chão lhe foge dos pés e que o mundo perdeu o sentido, e deseja ardentemente voltar atrás e ter uma segunda oportunidade para resolver os problemas com Ed e dizer o quanto o amava.

     E eis que Zoe tem também um pequeno acidente e, quando acorda, recuou 20 anos no tempo, até ao dia em que conheceu Ed. Vai poder reviver dias que foram pontos chave e que marcaram a sua relação com Ed, na esperança de que, mudando pequenas coisas, consiga fugir ao triste final da sua história. Mas, mais do que isso, é uma oportunidade de identificar o que correu mal e de se lembrar do porquê de amar tanto Ed. Será que os seus esforços serão suficientes para salvar Ed? Terão as suas ações no passado uma repercussão para um final diferente no futuro?

    Esta é uma leitura leve e agradável, apesar das circunstâncias. Assistimos à construção de uma bonita história de amor, naturalmente pautada por altos e baixos, e, à medida que acompanhamos a protagonista no caminho pelas suas memórias e vemos os seus esforços por fazer melhor, vemo-la reapaixonar-se pelo marido nas pequenas cenas do dia a dia.

     Na minha opinião, o único problema do livro é não conseguir fugir à previsibilidade. Este é um romance com alguns clichês e que, excetuando um pequeno plot twist no final, acaba por não surpreender particularmente. Além disso, leitor acaba por ficar na dúvida se o tempo voltou realmente atrás ou se o que Zoe vivenciou foi resultado do coma.

   O elemento de que mais gostei foi mesmo o ver representados os problemas comuns e as escolhas com que as pessoas se deparam na vida real - seja a decisão de priorizar a carreira, a altura certa para ter ou não filhos - e ainda o problema da infertilidade -, ou simplesmente o deixar-se entrar na rotina. É fácil revermo-nos nestas facetas tão próprias de uma relação - e da vida.

     Saliento ainda o facto de este livro nos fazer refletir ao relembrar-nos de que o felizes para sempre geralmente não é tão grande como gostaríamos e que cabe a cada um de nós aproveitar o presente da melhor forma possível, pois quantos não adiámos já desejos e decisões, na ilusão de termos o tempo como garantido?

     "Antes de Ires" é um romance que fala sobre segundas oportunidades e que deixa uma importante mensagem sobre a fragilidade da vida e a consequente necessidade de não deixar nada por dizer ou por fazer, porque o fim é sempre uma incógnita. É uma leitura que nos relembra que somos feitos de momentos e que devemos aproveitar cada um deles como se fosse o último. Uma boa leitura, portanto.


 Música que aconselho para acompanhar a leitura: James Bay_Let it Go

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Opinião sobre "Se conhecessem a minha irmã" - Michelle Adams

Se Conhecessem a Minha Irmã
(Artigo de Opinião)


Autora: Michelle Adams
Título Original: My Sister (2017)
ISBN: 978-989-6579-142
Nº de páginas: 312
Editora: Editorial Planeta


Sinopse

    Duas irmãs, duas vidas separadas.
    
     Uma família marcada por um segredo angustiante.

    Durante toda a vida ela pensou que foi dada porque a família não a desejava.
 
     Mas e se a verdade é algo muito pior?

     Uma história que revela como os laços e segredos de família podem ser letais. 

     Arrepiante e trágica na mesma medida.



Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Editorial Planeta em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Editorial Planeta pelo gentil envio do livro.

      "Se conhecessem a minha irmã", livro de estreia de Michelle Adams, apresenta-nos a doentia relação de duas irmãs unidas por misteriosos segredos do passado. 

    Com 3 anos de idade, Irini Harringford foi abandonada pelos pais aos cuidados dos tios, que a criaram, resultando também na separação da sua irmã Elle, que permaneceu com os progenitores. Crescendo sempre algo insegura por ter sido preterida pelas pessoas que mais a deveriam ter amado, Irini não compreende o motivo pelo qual foi afastada e sente que essa é uma importante peça em falta no puzzle da sua vida.

    Quando recebe uma chamada de Elle, de quem tenta fugir há anos, a dizer que a mãe morreu e a insistir consigo para ir ao funeral, Irini vê-se a regressar ao imponente e sombrio casarão da família, em Horton, pronta para tentar desvendar alguns dos segredos do seu passado. No entanto, a aproximação da maníaca Elle  pode revelar-se mais perigosa do que Irini inicialmente pensara: a suspeita morte do pai uns dias depois da sua chegada, a relutância das pessoas da vila em falar sobre a sua família e os episódios histriónicos protagonizados por Elle indiciam que há algo abaixo da superfície que tem de descobrir, mas que lhe pode ser quase fatal. Estará a sua vida em perigo, ou estarão trocados os papéis de vítima e de agressor?

    Este é um livro que começa com um clima estranho e termina num ambiente macabro, quase aterrador. Consoante mergulhamos nos segredos desta família disfuncional e começamos a desintrincar a complexa teia que constitui o seu passado, sentimos o instilar do medo e de uma sensação de perigo iminente. Adorei o facto de o livro me ter realmente conseguido provocar este tipo de reações de sobressalto, sentindo que, por vezes, a leitura se tornava quase claustrofóbica.

    Gostei bastante de tentar compreender a relação entre Irini e Elle - nomeadamente através dos flashbacks que nos mostram a primeira aproximação entre as duas irmãs. A personalidade manipulativa de Elle aliada à dependência emocional de Irini e à sua inconsciente procura de aceitação resultam numa relação nociva, perturbadoramente oscilante entre o amor e o ódio, a distância e a proximidade.

   "Se conhecessem a minha irmã" é um livro misterioso, pautado por sombrios segredos e surpreendentes reviravoltas, e que prende do princípio ao fim - e o final é tudo o que o livro promete e muito mais!  Cheio de suspense, mantém o leitor agarrado, temendo pela vida da protagonista e ansiado por descobrir a verdade - que, tal como na vida, nunca é tão simples como parece. Gostei muito e recomendo!
    
 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Sierra Burgess is a Loser (Shannon Purser)_Sunflower

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Opinião sobre "Os Altos e Baixos do Meu Coração" - Becky Albertalli

Os Altos e Baixos do Meu Coração
(Artigo de Opinião)


Autora: Becky Albertalli
Título Original: The Upside of Unrequited (2017)
ISBN: 978-972-0-03034-4
Nº de páginas: 288
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Aos 17 anos, Molly sabe tudo o que há para saber sobre o amor não correspondido. É que a jovem já se apaixonou 27 vezes, mas sempre em segredo. E por mais que a irmã gémea, Cassie, lhe diga para ter juízo, Molly tem sempre cuidado. É melhor ter cuidado do que sofrer.

   Quando Cassie se apaixona, a sua nova relação traz um novo círculo de amigos. Dele faz parte Will, que é engraçado, namoradeiro e um excelente candidato a primeiro namorado da Molly.

    Mas há um problema: o colega de Molly, Reid, um cromo e fã incondicional de Tolkien, por quem ela jamais se apaixonaria… certo?

    Uma história divertida e comovente sobre primeiros amores e a importância de sermos fiéis a nós mesmos.



Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

     Apesar de ter gostado do primeiro livro que li de Becky Albertalli, "Simon Contra O Mundo", a verdade é que o achei, por vezes, um pouco infantil. Por isso, foi num misto de receio e curiosidade que parti para a leitura de "Os Altos e Baixos do Meu Coração" - e tenho desde já a dizer que gostei muito!

    Aos 17 anos, Molly Peskin-Suso anseia por descobrir o amor. Com uma fraca autoestima, em parte devido à sua aparência - e mais precisamente ao excesso de peso -, já se apaixonou 26 vezes, mas optou sempre por se resguardar, mantendo em segredo os seus sentimentos, por medo de ser rejeitada. 

    Além disso, Cassie, a sua irmã gémea, é exatamente o seu oposto - loura, magra, alta e confiante, é uma rapariga decidida e bem resolvida. Quando Cassie se apaixona por Mina, o círculo de amigos de Molly aumenta e ela conhece Will, um rapaz bonito e divertido que se mostra aparentemente interessado. No entanto, Reid, o seu nerd colega de trabalho, começa também a ocupar um espacinho no seu coração... Poderá algum deles vir a ser a paixão número 27, ou, quiçá, até algo mais? Ou continuará Molly a proteger-se, com receio de sair magoada?

    Molly é uma personagem que conquista. A sua insegurança e fragilidade emocional no campo amoroso, aliadas à doçura de uma adolescente que ainda está a tentar compreender o seu lugar no mundo, fizeram-me apaixonar por Molly. É muito fácil identificarmo-nos com os seus medos e com os seus pensamentos, o que faz com que torçamos para que o seus desejos se realizem.

    Gostei muito da família de Molly e do clima de compreensão, aceitação, suporte e respeito uns pelos outros. Também me agradou ver a evolução da relação dela com a irmã, Cassie, depois desta última arranjar uma namorada - o sentimento de perda, de ter de partilhar uma pessoa que sempre foi tão nossa, de ficar para trás - e o caminho de aprendizagem das duas até conseguirem adaptar a sua relação à entrada de novos elementos.

      A escrita de Becky Albertalli combina na perfeição com a história: bonita e fácil de ler, pontuada por momentos divertidos e por reflexões com que nos identificamos. Além disso, gostei bastante da diversidade de personagens que a autora criou, levando, de uma forma suave, à desmistificação de preconceitos.

      O que tenho a apontar como aspeto menos positivo deste livro são aqueles clichês a que, em geral, os YA não conseguem fugir - a inevitável previsibilidade e a facilidade romantizada em ultrapassar os obstáculos - e que podem retirar alguma naturalidade à história. Mas a verdade é que o encanto de acompanhar a protagonista neste caminho de autoaceitação e descoberta é tal, que arrisco dizer que estranharia mais a ausência destas características próprias do género do que a sua presença.

    "Os Altos e Baixos do Meu Coração" é um livro fofo e amoroso, que nos envolve numa teia de compreensão, emoções, aceitação, descoberta, diversidade e de todos esses elementos tão próprios de uma época tão complexa como a adolescência. Uma leitura que teve quase um efeito de catarse, passa ainda uma mensagem importante de aceitação e respeito por nós mesmos e pelos outros, porque todos merecemos esse bem tão valioso e aparentemente tão frágil que é o amor. Recomendo!


 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Sierra Burgess is a Loser (Shannon Purser)_Sunflower

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Opinião sobre "A Sombra da Noite" (Detective Erika Foster #2) - Robert Bryndza

A Sombra da Noite
(Detective Erika Foster #2)
(Artigo de Opinião)


Autor: Robert Bryndza
Título Original: Night Stalker (2016)
Tradução: Ana Lourenço
ISBN: 978-989-999-336-5
Nº de páginas: 352
Editora: Alma dos Livros


ATENÇÃO: esta opinião pode conter spoilers de livros anteriores

Sinopse

    Numa noite quente de verão, a inspetora-chefe Erika Foster é chamada à cena de um crime. A vítima, um médico, é encontrada asfixiada na cama. Tem os pulsos amarrados e os olhos parecem querer saltar-lhe das órbitas através do saco de plástico transparente que lhe cobre a cabeça e o sufocou. Alguns dias mais tarde, outra vítima é encontrada exatamente nas mesmas circunstâncias. À medida que Erika e a sua equipa intensificam as investigações deparam-se com um assassino em série inteligente e calculista - que persegue e sabe tudo sobre as vítimas antes de escolher o momento certo para atacar. 

As vítimas são homens solteiros, com uma vida muito reservada e um passado envolto em segredo. Porém, podem não ser as únicas pessoas a ser observadas... Erika começa a receber mensagens enigmáticas e a sua própria vida corre perigo. Ela tudo fará para desvendar o mistério que rodeia estes crimes, ainda que isso signifique arriscar a sua carreira na polícia. Imperdível!

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Alma dos Livros em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Alma dos Livros pelo gentil envio do livro.

     "A Sombra da Noite" é o segundo volume da série iniciada com "A Rapariga no Gelo" 
(podem ler a minha opinião aqui), e que tem a inspetora-chefe Erika Foster como protagonista. O primeiro livro ficou um bocadinho aquém das minhas expectativas - apesar de ter sido uma agradável leitura -, mas diversas opiniões afirmavam que a série melhorava nos volumes seguintes, e por isso decidi continuar. E ainda bem que o fiz! O amadurecimento da história, a todos os níveis, de um livro para outro, é notável, e "A Sombra da Noite" está mais do que à altura do que promete!

     Um médico bem sucedido é encontrado morto, despido e deitado na cama, de mãos amarradas e com um saco de plástico na cabeça, e a equipa de Erika Foster é chamada para investigar o caso que, aparentemente, não passaria de um crime de ódio. Mas o instinto de Erika dita-lhe um caminho diferente para a investigação do que aquele que os seus superiores desejavam.

     E, de facto, dias mais tarde é encontrado outro corpo em circunstâncias semelhantes. As vítimas têm em comum o facto de serem todas homens bem sucedidos, solteiros ou divorciados, encontrados mortos da mesma forma. Estaremos na presença de um serial killer? Haverá um padrão na escolha das vítimas? Quando a sua vida profissional se começa a embrenhar na pessoal, será Erika capaz de descobrir o culpado antes que ela própria se torne numa vítima?

     Antes de qualquer outra coisa, tenho de dizer que este livro me prendeu realmente. Adorei a forma como o autor teceu e nos apresentou a história e o modo como os acontecimentos foram encadeados.  Bryndza consegue dosear na perfeição os diversos elementos da trama, encontrando um ponto de equilíbrio ótimo entre a vida pessoal e a vida profissional da protagonista.

  Erika é uma personagem que me inspira mix feelings. Se, por um lado, é uma mulher ainda profundamente magoada com a morte do marido - e neste livro temos melhor explorado o luto em que a inspetora ainda se encontra -, por outro é uma pessoa extremamente determinada, instintiva e pouco habituada a seguir ordens. Essa mistura de fragilidade escondida com tenacidade feroz faz dela uma personagem, por vezes, um pouco fria. 

    No entanto, adorei ver a forma como a relação entre ela e os colegas da sua equipa de trabalho  - Peterson, Moss e o patologista Isaac - evoluiu, havendo já um elo de amizade e lealdade que me agradou bastante. No entanto, as burocracias e os mecanismos mal oleados dentro da polícia mantêm-se, e confesso que fiquei bastante irritada com algumas atitudes de desdém vindas de superiores hierárquicos. 

     Fiquei um pouco receosa com o facto de descobrirmos tão cedo quem é o assassino, pois geralmente gosto de tentar adivinhar quem terá sido o culpado e pensei que isso fosse retirar grande parte do suspense da trama, mas a verdade é que me enganei! Os capítulos que mostram a perspetiva do assassino levam-nos a compreender que há uma pessoa, ainda que bastante perturbada, por detrás do monstro, e, ao conhecer a sua história, senti que estava a assistir aos episódios que, ao longo de uma vida, levaram à construção de um ser sedento de vingança e morte. Este processo de descoberta da personalidade e dos motivos do assassino agradou-me especialmente, pois, por estranho que pareça, por vezes cheguei mesmo a sentir empatia pela desgraça da personagem - como o autor diz: "todas as crianças nascem inocentes, o mundo é que as corrompe".

    O autor evoluiu imenso, quer ao nível da construção do enredo quer ao nível da maturação das personagens. O facto de termos capítulos - curtos, o que também ajuda - narrados sob várias perspetivas e com planos alternados dá-nos uma visão mais profunda da trama e faz-nos querer continuar a ler até chegarmos ao final.

    Aproveito ainda para congratular a editora, a Alma dos Livros, por ter apostado nesta série e por estar a publicá-la tão depressa em Portugal, uma vez que, já neste mês de Julho, vai ser publicado o quinto livro, "Sangue Frio". 

    "A Sombra da Noite" conquistou-me completamente e estou ansiosa por ler "Águas Profundas", o terceiro livro da série, e descobrir o que reserva o futuro a Erika Foster. Gostei mesmo muito!

Opinião sobre outros livros de Robert Bryndza:
 Música que aconselho para acompanhar a leitura: James Bay_Us

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Opinião sobre "Um de Nós Mente" - Karen M. McManus

Um de Nós Mente
(Artigo de Opinião)


Autora: Karen M. McManus
Título Original: One Of Us Is Lying (2014)
ISBN: 978-989-234-198-9
Nº de páginas: 336
Editora: Gailivro


Sinopse

    Simon Kelleher é o criador do Má-Língua, uma nova aplicação que está a encurralar a elite de Bayview High, revelando pormenores da vida privada dos alunos da escola. 

     Mas o caso torna-se mais grave quando Simon e quatro colegas ficam fechados de castigo numa sala, e ele morre diante das suas vítimas. 

     Os quatro que se tornam suspeitos imediatos do homicídio, são:
   A melhor aluna da escola, BRONWYN, que nunca viola uma regra e quer entrar em Yale. A estrela da equipa de basebol de Bayview, COOPER. NATE, o criminoso, que está em liberdade condicional por vender droga. A menina bonita, ADDY, que parece ter a vida perfeita ao lado do namorado perfeito. 

     Que segredos queriam esconder para eliminar Simon?
     Quem será o culpado?

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Gailivro em troca de uma opinião sincera

Opinião

      Começo por agradecer à Gailivro pelo gentil envio do livro.

    "Um de Nós Mente", a estreia de Karen M. McManus, foi um livro que adorei e que me surpreendeu pelos melhores motivos! 

      A história começa quando cinco alunos da Bayview High - Bronwyn Rojas, Cooper Clay, Nate Macauley, Addy Prentiss e Simon Kelleher - se encontram na sala do castigo por uma infração que afirmam não ter cometido. Estas personagens, que parecem ser o encarnar dos típicos clichês de uma escola secundária americana, não podiam ser mais diferentes. Temos Bronwyn, a menina certinha e inteligente que sonha entrar em Yale; Cooper, o desportista que tenta ganhar uma bolsa de estudo; Nate, o rufia que já foi preso por tráfico de droga; Addy, a rapariga bonita que namora com o rapaz mais social da escola. E depois temos Simon, um rapaz que espalha os podres e os segredos de toda a gente na sua aplicação, o "Má-Língua", e que não sai vivo daquela sala. 

      Os quatro têm motivos para querer ver Simon morto, mas todos afirmam estar inocentes. Será que estão a dizer a verdade, ou que, um deles, mente?

      Os capítulos são narrados, alternadamente, sob a perspetiva dos quatro jovens suspeitos, o que nos permite não só conhecer a sua visão da história, mas também descobri-los enquanto seres individuais - os seus sonhos, os seus medos, os seus ambientes familiares... e os seus segredos. Como temos acesso aos pensamentos de cada personagem, formavam-se constantemente teorias na minha cabeça, que eram fabulosamente arrasadas no capítulo seguinte. Este constante desconfiar das personagens, aliado à ânsia de descobrir quem eram os inocentes e os culpados, fez com que não conseguisse pousa o livro antes de descobrir quem realmente matou Simon.

    O que mais gostei neste livro foi o facto de a autora ter pegado em personagens aparentemente clichês - a crânio, o atleta, o criminoso e a princesa - e, partindo delas, ter desconstruído estereótipos, mostrando que as pessoas são mais complexas do que o que a imagem exterior indicia. E foi exatamente isso que apreciei durante a leitura: ir conhecendo as diversas camadas dos personagens, compreender a influência do ambiente em que cresceram nas suas personalidades e motivações, decobrir o que escondem abaixo da superfície.

   O único aspeto menos bom que tenho a apontar é o facto de, a certa altura da história, a investigação policial ficar um pouco em segundo plano, uma vez que o principal foco incide nas quatro personagens principais, no que está a acontecer nas suas vidas e na forma como estão a lidar com o sucedido. Isto não é necessariamente uma coisa má, uma vez que não senti falta dessa componente mais policial para a manutenção da tensão durante a leitura.

    Adorei o resultado da mistura de personagens YA com o suspense do thriller, sendo que, mais do que de mistério, "Um de Nós Mente" é um livro cheio de segredos. A autora desenvolveu uma trama intrigante e inteligente, cheia de reviravoltas, mas que acaba também por abordar temas mais sérios. Esta foi uma leitura extremamente rápida e viciante, principalmente à medida que me ia sentindo cada vez mais vinculada às personagens, sempre no limbo entre acreditar e desconfiar delas. Muito bom!

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: John Mayer_Free Fallin'