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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Opinião sobre "Sem Saída" (DI Adam Fawley #3) - Cara Hunter

Sem Saída
(DI Adam Fawley #3)
(Artigo de Opinião)


Autora: Cara Hunter
Título Original: No Way Out (2019)
ISBN: 978-972-0-03341-3
Nº de páginas: 336
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Este é um dos casos mais perturbadores em que o Inspetor Fawley já trabalhou

     São férias de Natal e duas crianças acabam de ser retiradas dos destroços de uma casa em chamas no norte de Oxford. O bebé está morto e irmão foi transportado para o hospital onde luta pela vida. Como é que duas crianças tão pequenas são deixadas sozinhas em casa? Onde está a mãe? E porque é que o pai não atende o telefone?

     Quando novas provas são descobertas, o pior pesadelo de DI Fawley torna-se realidade.

     Porque este incêndio não foi um acidente.

     E o assassino ainda anda lá fora.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

   "Perto de Casa" e "No Escuro" (podem ler a minha opinião aqui e aqui) iniciaram a série protagonizada pelo Inspetor Adam Fawley, uma personagem que rapidamente me conquistou, e em "Sem Saída" acompanhamos mais um caso particularmente angustiante.

     Um incêndio deflagra numa mansão em Southey Road, Oxford, e, entre os destroços, encontram-se os corpos de duas crianças - um menino de 10 anos, que é transportado para o hospital em estado crítico, e um bebé de 3 anos, já sem vida. Não há sinal da mãe e o pai está incontactável... Terão sido estas duas crianças tão pequenas realmente deixadas sozinhas? Onde estão, afinal, os pais?

     Esta breve sinopse está longe de resumir o que se passa neste livro, que, como a autora já nos habituou em volumes anteriores, está cheio de surpreendentes reviravoltas. O enredo é complexo e está muito bem construído, com a dose certa de mistério, e as revelações acontecem no tempo devido, para que o impacto seja máximo.

      Mais uma vez, encontramos, intercalados na narrativa, excertos de relatórios, registos de chamadas telefónicas, notícias em publicações online, acompanhadas pelos respetivos comentários de utilizadores, figuras esquemáticas, etc. Esta, que já se tem tornado uma imagem de marca dos livros protagonizados pelo Inspetor Fawley, torna a leitura particularmente original e curiosa. Temos também algumas incursões ao passado, que, para além de interessantes e de abordarem temas relevantes, como a importância da saúde mental, também permitem ao leitor ter elementos para ir construindo a sua visão dos acontecimentos.

     Uma das coisas de que mais gostei foi o facto de a autora ter explorado mais a vida pessoal não só do protagonista, mas também das pessoas que fazem parte da sua equipa. Conhecer melhor estas personagens deu-lhes uma outra dimensão mais envolvente e confesso que me senti mais afeiçoada a elas neste volume.

     Também achei muito interessante a construção desta família de Southey Road e as várias facetas que a autora desenhou para cada personagem. À medida que vamos mergulhando na história, começam a vir ao de cima os esqueletos escondidos no armário, e gostei particularmente da forma tão real como a autora retratou o que é ser-se humano, com todos os medos, defeitos, esperanças e virtudes.

      A escrita de Cara Hunter acompanha na perfeição o ritmo da narrativa e faz com que o facto de não haver capítulos mas apenas separações de pontos de vista através de grafismos - algo que, por norma, não adoro - não só não seja um incómodo, como se torne até uma mais valia, porque acaba por ser refrescante observar a trama a partir de várias perspetivas.

    "Sem Saída" foi uma leitura compulsiva e viciante, com um enredo cativante e uma dose de suspense que prende o leitor, na ânsia de perceber o que realmente aconteceu. Este livro m
antém, sem dúvida, a qualidade dos volumes anteriores e, apesar de o meu preferido continuar a ser o "No Escuro", nem por isso recomendo menos a leitura de "Sem Saída"!

Opinião sobre outros livros de Cara Hunter:

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Jack Savoretti_Breaking the Rules

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Opinião sobre "Dois Reinos Negros" (Três Coroas Negras #3) - Kendare Blake

          Dois Reinos Negros

(Três Coroas Negras #3)

(Artigo de Opinião)

Autora: Kendare Blake
Título Original: One Dark Throne (2017)
ISBN: 978-972-0-03305-5 
Nº de páginas: 372
Editora: Porto Editora


Sinopse

    A rainha Katharine esperou a vida toda para usar a coroa.

    E com a fúria das rainhas mortas a fervilhar-lhe nas veias, acredita que a sua hora chegou.

    Muitos contestam o seu poder. E com os boatos de que as irmãs não terão sido mortas como manda a tradição, a ansiedade de Katharine aumenta. Quando as ondas do mar que banha Fennbirn começam a despejar corpos nas suas praias, o pânico instala-se.

    Escondidas no Continente, Arsinoe e Mirabella tentam continuar com as suas vidas, longe de tudo o que perderam. Contudo, o apelo para regressar a casa depressa se torna mais forte, e Arsinoe é perseguida por visões da lendária Rainha Azul. Jules descobre um novo dom e, com ele, um exército rebelde que espera por uma oportunidade para usurpar o trono. Um exército liderado por ela.

     A coroa foi conquistada. Mas estas quatro rainhas não estão satisfeitas.

    Porque a coroa de Fennbirn não pode ser roubada. Tem de ser merecida.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

      Depois de "Três Coroas Negras" e "Um Trono Negro" (podem ler as minhas opiniões aqui e aqui), de que gostei muito, foi, pois, com grandes expectativas que parti para esta leitura - e a verdade é que, mais uma vez, adorei!

     Katherine está, finalmente, onde sempre quis - no trono de Fennbirn -, mas continua atormentada pela fúria das rainhas mortas e não consegue que o povo a respeite como soberana. Arsinoe e Mirabella tentam adaptar-se à nova vida no continente, mas o chamamento da ilha não cessa, e Arsinoe começa a sonhar com a mítica Rainha Azul. Jules juntou-se aos guerreiros e à sua revolução pela coroa. E, entretanto, uma nova ameaça desceu sobre a ilha e corpos estão a dar à costa...

     Esta é uma série que me conquista mais e mais a cada livro. A escrita de Kendare Blake é muito fluida e dinâmica, combinando na perfeição com o ritmo da narrativa e transmitindo uma ambiência com toques de dark. A trama foge aos clichês mais habituais e tem reviravoltas verdadeiramente surpreendentes, o que, aliado ao ritmo intenso e à conexão já criada com as personagens, torna a leitura bastante sôfrega.

    Uma das coisas de que mais gostei neste volume foi a pequena incursão ao passado, o descobrirmos mais sobre as antigas rainhas, que era algo que queria muito que a autora explorasse. Desde o primeiro livro que tinha curiosidade em saber mais sobre a história da ilha e das rainhas de Fennbirn, e em "Dois Reinos Negros" é finalmente levantada uma ponta do véu. 

    Outro ponto que também me conquistou foi constatar a evolução das personagens, que cresceram e mudaram bastante desde o primeiro livro. Ver o amadurecimento das protagonistas, todas com personalidades tão díspares, com vulnerabilidades, falhas, medos e virtudes, torna impossível não nos afeiçoarmos, embora de maneiras diferentes, a todas elas. É de referir que surgem também, neste livro, personagens novas, como sempre muito bem construídas, que conferem uma emoção nova à história e que gostei de conhecer.

   "Dois Reinos Negros" foi, mais uma vez, uma leitura incrível! Original e surpreendente, com personagens cativantes e um enredo interessante e bem trabalhado, esta série, que tem vindo a melhorar a cada livro, está a ganhar um lugar de destaque no meu top de leituras fantásticas. Resta-me dizer que aguardo ansiosamente a publicação do último volume, para descobrir finalmente o destino que Kendare Blake tem reservado para as rainhas de Fennbirn. Recomendo muito!

Opinião sobre outros livros de Kendare Blake:
     
 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Imagine Dragons_Natural

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Opinião sobre "A Morte e Outros Finais Felizes" - Melanie Cantor

A Morte e Outros Finais Felizes
(Artigo de Opinião)


Autora: Melanie Cantor
Título Original: Death and Other Happy Endings (2019)
ISBN: 978-972-0-03342-0
Nº de páginas: 360
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Nada como receber a notícia de que temos os dias contados para percebermos o que é realmente importante.

    Quando Jennifer Cole descobre que tem apenas três meses de vida, decide escrever três cartas: uma para irmã egoísta e arrogante, outra para o ex-marido traidor e amoral e a terceira para o seu charmoso, mas pouco confiável, ex-namorado. As cartas expressam tudo o que ela sempre quis dizer, mas nunca teve coragem. Embora temendo as piores reações, Jennifer reconhece que os desabafos lhe retiraram um enorme peso dos ombros e sente-se mais leve e tranquila.

    Mas, como ela em breve descobrirá, a verdade tem formas muito interessantes de nos surpreender. E a morte também.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera

Opinião

       Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

      Quando Jennifer Cole, de 43 anos, vai ao médico por causa do cansaço que tem vindo a sentir nos últimos tempos, está longe de imaginar a horrível notícia que a espera: tem uma doença hematológica rara que, infelizmente, é fatal, e só lhe restam 3 meses de vida.

      Ainda em estado de choque, acaba por seguir o conselho da melhor amiga e enviar uma carta a 3 pessoas que a desiludiram e a quem sente ter ainda coisas para dizer: a irmã, individualista e presunçosa; o ex-marido, que a trocou num momento em que estava mais frágil; e o ex-namorado, pouco transparente, mas de quem sente ainda saudades. 

       Mais serena e aliviada por ter tentado resolver desacatos do passado, Jennifer decide aproveitar os dias que lhe restam com tranquilidade, decidida a manter a normalidade até ao final. Mas a vida dá muitas voltas... e a morte também.

     Parti para esta leitura com grandes expetativas e confesso que estava à espera de algo diferente. Não só demorei algum tempo a entrar na história, como, apesar do momento de vulnerabilidade que atravessa, não consegui criar empatia imediata com a protagonista. Apesar da premissa de "pessoa descobre que vai morrer" não ser já propriamente original, estava curiosa para ver como Melanie Cantor ia explorar o tema, descobrindo-lhe talvez um novo ângulo, e fiquei um pouco desiludida por não ter encontrado nada de particularmente refrescante.

    Escrita com uma boa dose de humor, a história tem algumas reviravoltas interessantes, que, não me tendo apanhado de surpresa, ainda assim dão um rumo engraçado à narrativa. Com uns momentos mais ternos e outros mais introspetivos, o que me desapontou foi sentir que era tudo um bocado morno e já expectável. 

    A morte é abordada de uma forma suave, recorrendo muitas vezes ao sarcasmo da protagonista, e o confronto com a situação que esta atravessa leva-nos também a nós, leitores, a refletir sobre a importância que damos às coisas do quotidiano, e sobre os rancores que guardamos durante anos por situações que, com uma boa conversa, até seriam fáceis de resolver.

    O que mais gostei neste livro foi a evolução dos relacionamentos de Jennifer, tanto os do foro amoroso, como também as relações de amizade e familiares - principalmente o desabrochar do seu vínculo com a irmã. Também achei giro ver como a personalidade da protagonista se foi transformando à medida que a história avançava, tornando-se mais desprendida e bem resolvida, embora por vezes tenha achado o seu discurso um pouco repetitivo e supérfluo.

    "A Morte e Outros Finais Felizes" foi uma leitura divertida, embora previsível. Tocando um assunto sério de um modo leve e jovial, esta é uma história que não só entretém, como também nos faz refletir sobre o que faríamos se fôssemos nós a estar na pele da protagonista. Poderá ser uma boa opção para fãs do género chick-lit, ou simplesmente para quem procura uma leitura fácil e engraçada.


 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Powfu ft. beabadoobee_death bed

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Opinião sobre "A Rapariga Que Sobreviveu" (Agente Especial Tess Winnett #2) - Leslie Wolfe

A Rapariga Que Sobreviveu
(Agente Especial Tess Winnett #2)
(Artigo de Opinião)


Autora: Leslie Wolfe
Título Original: The Watson Girl (2017)
ISBN: 9789898999115
Nº de páginas: 320
Editora: Alma dos Livros


Sinopse

    Laura testemunhou a morte da família, mas o choque apagou-lhe da memória tudo o que aconteceu nessa fatídica noite. O assassino pode ser qualquer pessoa. Enquanto a polícia procura que ela se recorde do que sucedeu, o homicida vai tentar matar a única testemunha viva do crime: ela.

    Por puro instinto de sobrevivência, a menina de cinco anos escondeu- se até que os gritos acabassem. A seguir, um silêncio mortal invadiu a casa. Isto foi há quinze anos. Durante esse tempo, Laura Watson acreditou que o assassino da família se encontrava preso, aguardando a execução no corredor da morte. Mas, enquanto tenta seguir com a vida junto da família adotiva, não consegue libertar-se do medo e da incerteza de um dia se lembrar do que ocorreu. Quando uma aclamada psicóloga propõe a Laura ajudá-la a recuperar as lembranças, ela aceita, ansiosa por lançar alguma luz sobre o seu passado adormecido.

    O que não sabe é que, quanto mais mergulha nas memórias, mais se torna um alvo para o assassino, que está à solta e não pode permitir que a verdade seja desvendada.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Alma dos Livros em troca de uma opinião sincera

Opinião
     
      Começo por agradecer à Alma dos Livros pelo gentil envio do livro.

    Segundo volume da série protagonizada pela Agente Especial Tess Winnet (podem ler a minha opinião sobre o primeiro livro, "A Rapariga Sem Nome", aqui), "A Rapariga Que Sobreviveu" foi uma leitura que não correspondeu totalmente às minhas expetativas...

    Com apenas 5 anos, Laura Watson testemunhou a morte de toda a sua família às mãos de um assassino cruel, sobrevivendo por se ter escondido do atirador. Agora, 15 anos mais tarde, Laura refez a sua vida, mas continua, no seu íntimo, atormentada por não conseguir recordar-se do que aconteceu naquela trágica noite.

     A Agente Especial Tess Winnet é enviada ao corredor da morte para rever os pormenores dos casos de que é acusado o "Homem de Família" - a quem é também atribuído o assassinato da família Watson -, e cuja data de execução está próxima. E é aí que, ao falar com o serial killer, a detetive percebe que há pontos nas investigações que não batem certo, e surgem revelações que vão mudar tudo.

     E eis que, quando uma conhecida psicóloga propõe a Laura ajudá-la a recuperar as suas memórias, expondo-a em público, Tess sabe que a jovem acabou de se tornar um alvo para um assassino que poderá ainda estar à solta...

    Neste livro reencontramos Tess Winnet, ainda a recuperar dos acontecimentos do final do primeiro livro, mas já pronta para voltar a pôr mãos à obra. Tess é uma personagem cujo humor sarcástico e inabilidade social me agradam bastante, mas que gostava que tivesse crescido mais neste livro. Se, no primeiro volume, achei que a autora revelou em demasia o passado da protagonista, neste segundo volume gostava que tivesse havido um maior destaque da sua vida pessoal. Continuo interessada em acompanhar Tess em futuros livros e estou curiosa para saber de que forma Wolfe vai fazer evoluir a personagem.

     A premissa deste livro - uma jovem sobrevivente que não se lembra da noite em que a sua família foi assassinada, e a dúvida sobre se terá havido algum erro na investigação desse crime - é interessante e desperta a atenção. No entanto, durante a leitura, fiquei sempre com a sensação de que o potencial da história estava a ser mal aproveitado, que havia outros ângulos mais interessantes por explorar, nomeadamente o do "Homem de Família" (adorava ter lido mais sobre ele).

   Os capítulos que vamos encontrando, alternadamente, escritos sob a perspetiva do assassino, foram o ponto que mais me agradou neste livro. Gostei que a autora tivesse explorado os aspetos da psique, bem como os seus métodos e motivações, e nota-se, efetivamente, algum trabalho de pesquisa nestas áreas, embora nem todas as explicações me tenham convencido. 

    Acho que o livro pecou, essencialmente, pela falta de personagens. Sendo este um policial, creio ser necessário um leque mais amplo de personagens, para que também o leitor faça aquele "jogo" de tentar adivinhar o culpado. Aquilo que mais me desiludiu foi a previsibilidade, visto que, logo no início, adivinhei quem era o assassino, e passei o resto da leitura a pensar "não pode ser, isto vai dar uma volta, tenho de estar errada". Na minha opinião, devia ter havido, da parte de Leslie Wolfe, um maior esforço para "encobrir" a identidade do culpado durante mais tempo, e o final, que foi um pouco apressado, deixou algumas pontas soltas.

   Outro ponto que, embora não me tenha desiludido particularmente, acho que pode defraudar as expetativas de alguns leitores: na sinopse é referida uma psicóloga que promete a Laura ajudá-la a recuperar as memórias, através da hipnose, mas esse é um tema que quase não é explorado. Gostava que Wolfe também tivesse desenvolvido esse outro lado, explicando como decorre o processo, pois seria um acrescento interessante ao livro.

    "A Rapariga Que Sobreviveu" foi uma leitura que deixou em mim sentimentos ambíguos: se, por um lado, senti que havia potencial nesta história para fazer melhor, por outro, a verdade é que este não é, de todo, um mau livro - o ritmo é rápido, sem "momentos mortos", o que mantém o leitor curioso para continuar e perceber o rumo que a autora vai dar à história. Apesar de esta leitura ter ficado um pouco aquém das minhas expetativas, não tenho quaisquer dúvidas de que agradará a muitos leitores, e recomendo este livro principalmente a quem se está a iniciar no género thriller/policial. 


Opinião sobre outros livros de Leslie Wolfe:
A Rapariga Sem Nome" (Agente Especial Tess Winnett #1)

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Dermot Kennedy_Power Over Me

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Opinião sobre "Vidas Adiadas" (Poppy & Serena #2) - Dorothy Koomson

Vidas Adiadas
(Poppy & Serena #2)
(Artigo de Opinião)


Autora: Dorothy Koomson
Título Original: All My Lies Are True (2020)
ISBN: 978-972-0-03333-8
Nº de páginas: 504
Editora: Porto Editora

ATENÇÃO: esta opinião pode conter spoilers de livros anteriores

Sinopse

    Verity mente…
     E é por isso que está prestes a ser detida por tentativa de homicídio.


     Serena mente desde sempre…

    E talvez por isso a sua filha se veja obrigada a fazer o impensável…



     Poppy vive assombrada pelas mentiras…

     Irá a sua busca pela verdade acabar por ferir todos os que ama?


     Todos mentimos.
     Mas quais mentiras acabarão em tragédia?



    Da autora bestseller de A filha da minha melhor amiga e Conta-me o teu segredo, chega-nos a arrebatadora continuação de Um erro inocente.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

  Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

     Passaram 10 anos desde o final de "Um Erro Inocente" (podem ler a minha opinião aqui) e "as Meninas do Gelado", Poppy e Serena, tentaram seguir com as suas vidas e abandonar de vez o passado... mas como esquecer algo que foi tão marcante e que está tão enraizado na sua forma de ser?

      Desde o final da adolescência que Poppy e Serena convivem com a culpa de se terem apaixonado por um homem mais velho, um professor que mantinha com elas um relacionamento abusivo e que culminou numa teia de problemas que acabou por mudar a vida das duas jovens. Passaram-se 30 anos, mas os fantasmas do passado teimam em não desaparecer e a busca pela verdade ameaça trazer novamente ao de cima segredos que deveriam já estar enterrados.

    Reencontramos também Verity, a filha mais velha de Serena, que, já crescida, assume também ela um papel de protagonista nesta sequela. Com 24 anos, é uma jovem advogada com um futuro que se adivinha promissor... até ao dia em que é detida e acusada de tentativa de homicídio. 


    Poppy quer provar a sua inocência e encontrar finalmente a paz, Serena quer proteger a filha e evitar que esta passe pelo mesmo que ela passou e Verity... Verity é a peça central deste puzzle em que nada é o que parece. Se todos mentem, como destrinçar a verdade da mentira?

     Esta é uma sequela que mantém a qualidade do primeiro livro, o que nem sempre acontece, e, para ser sincera, acho que ainda gostei mais deste livro do que de "Um Erro Inocente": suprime as poucas falhas do anterior, dá resposta a algumas das questões que tinham ficado por  responder e apresenta uma nova fase das vidas das protagonistas, que ainda não completaram o seu processo de catarse e que continuam atormentadas pelos traumas de uma época menos feliz. Além disso, adorei ver a evolução de Poppy e Serena, o surgir da voz de uma nova protagonista e a presença bem mais marcada dos núcleos familiares destas personagens.

   Já no primeiro livro tinha sido a minha personagem preferida, mas neste, de facto, a Poppy conquistou-me completamente. Gosto muito do desenvolvimento desta personagem e da sua personalidade forte e resiliente, apesar das vicissitudes que a vida lhe impôs e de que resultam grande parte das suas inseguranças. Verity assume também um papel central neste livro, e foi bom reencontrar a filha de Serena 10 anos mais velha, já uma jovem mulher, interessante mas também ela com a sua quota-parte de segredos.

   Como já disse, achei muito interessante que a autora tivesse explorado mais o impacto do que aconteceu 30 anos antes na vida de todos os membros destas famílias. Se em "Um Erro Inocente" descobrimos o passado de Poppy e Serena e a forma como as duas mulheres tentam reconstruir as suas vidas, em "Vidas Adiadas" percebemos também a repercussão que todo o sofrimento causou nos pais e nos irmãos das "Meninas do Gelado" e ficamos com outra perspetiva de alguns dos acontecimentos.

     O abuso é um tema que volta a ter destaque neste livro, mas que é abordado numa outra vertente, mais subtil mas igualmente importante, representando mais uma vez um importante alerta sobre a violência - por vezes disfarçada nas aparentes insignificâncias do quotidiano, tornando-se complicado para a vítima ver a situação como um todo antes de  as coisas se agravarem exponencialmente.

   Sem me querer alongar muito sobre o final, resta-me só dizer que gostei bastante e que fica no ar a esperança de que talvez ainda chegue um terceiro livro sobre estas personagens... se chegar, cá estarei para o ler!

    "Vidas Adiadas" é uma leitura viciante, cheia de suspense e reviravoltas, onde a verdade e a mentira se confundem num novelo de segredos e embustes, e em que nunca sabemos em quem podemos confiar. Quem gostou de "Um Erro Inocente" vai de certeza gostar de reencontrar estas personagens e, para quem ainda não leu, é uma excelente oportunidade para dar uma chance a esta duologia, que vale muito a pena! Adorei e recomendo!



Opinião sobre outros livros de Dorothy Koomson:
Um Erro Inocente (Poppy & Serena #1)

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Selena Gomez_Lose You To Love Me

terça-feira, 21 de julho de 2020

Opinião sobre "Um Erro Inocente" (Poppy & Serena #1) - Dorothy Koomson

Um Erro Inocente
(Poppy & Serena #1)
(Artigo de Opinião)


Autora: Dorothy Koomson
Título Original: The Ice Cream Girls (2010)
ISBN: 978-972-0-04100-5
Nº de páginas: 448
Editora: Porto Editora


Sinopse

    O primeiro amor pode matar…


  Durante a adolescência, Poppy Carlisle e Serena Gorringe foram as únicas testemunhas de um trágico acontecimento. Entre aceso debate público, as duas glamorosas adolescentes viram-se a braços com os tribunais e foram apelidadas pela imprensa de "As Meninas do Gelado".

      Anos mais tarde, tendo seguido percursos de vida muito diferentes, Poppy está decidida a trazer ao de cima a verdade sobre o que realmente sucedeu, enquanto Serena, esposa e mãe de dois filhos, não pretende que ninguém do presente desvende o seu passado. Mas é impossível enterrar alguns segredos - e se o seu for revelado, a vida de ambas voltará a transformar-se num inferno…

   Emocionante e enternecedora, esta história fará com que nos perguntemos se alguma vez poderemos conhecer verdadeiramente aqueles que amamos.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

       Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

       Quase 3 anos depois de me ter estreado com Dorothy Koomson, com a "A Amiga" (podem ler a minha opinião aqui), aproveitei a publicação de "Vidas Adiadas", a sequela de "Um Erro Inocente", para me aventurar na história de Poppy e Serena - e ainda bem que o fiz!

     Estamos em 1989 e Poppy Carlisle e Serena Gorringe enchem os cabeçalhos dos jornais. Apelidadas pela imprensa de "As Meninas do Gelado", as duas adolescentes são acusadas de um crime hediondo: a tortura e morte de Marcus Halnsey, um respeitável e popular professor.
     
         Passaram vinte anos e a vida das duas mudou radicalmente: Poppy foi presa por um crime que jura não ter cometido; Serena construiu uma vida e vive atormentada pelo peso da culpa, sempre com medo de que tudo se desmorone. Poppy quer vingança, Serena não quer remexer no passado... Afinal, o que aconteceu naquele fatídico dia?

       Esta história é-nos contada a duas vozes e em duas linhas temporais: temos Poppy e Serena; e temos o presente, em 2010, e o passado, no final dos anos 80. Há vinte anos que Poppy e Serena são perseguidas pelo trauma e pelo estigma, enredadas numa teia de mentiras e segredos, sem que ninguém acredite nelas. Vinte anos em que uma delas esteve a cumprir uma pena por um crime que diz não ter cometido e em que a outra, apesar de ter estado em liberdade, foi sempre prisioneira do medo de ver a verdade vir ao de cima.

       Quero, antes de mais, dizer que gostei muito deste livro. A autora criou um enredo intrigante e verosímil, enquadrado numa época em que as relações abusivas ainda eram consideradas culpa da vítima e não do agressor. Quer a versão jovem quer a adulta de Poppy e Serena são facetas muito bem construídas, com personalidades que se destacam e que cativam. Ainda assim, e sem querer entrar demasiado em pormenores para não incorrer em spoilers, a resignação rápida de uma das personagens não me convenceu totalmente.

     Koomson não poupa em descrições chocantes e, por diversas vezes, durante a leitura, senti o clima opressivo e quase claustrofóbico vivido pelas protagonistas. A autora descreve tão bem o espetro de emoções experenciado pelas personagens que, aliado ao facto de a história ser narrada na primeira pessoa, acaba por permitir ao leitor sentir-se também ele parte da trama.

    Acho que a autora optou por um final que apanhará muita gente de surpresa, embora eu confesse que já suspeitava do que veio a acontecer. Ainda assim, admito que é um bom final, que quase de certeza deixará grande parte dos leitores boquiaberta, mas que poderá não satisfazer totalmente aqueles que preferem um desfecho onde tudo termine bem para os bons da fita.

    São vários os temas importantes que acabam por ser falados neste livro e que convidam à reflexão, destacando-se o da violência física e psicológica nos relacionamentos. Gostei muito da forma como a autora abordou estes tópicos mais delicados, retratando a manipulação e a submissão impostas pelo agressor e expondo e desconstruindo a culpa que as vítimas muitas vezes sentem e que, de forma direta ou indireta, lhes é frequentemente imputada pela sociedade.

    Com personagens ricamente construídas e um clima constante de incerteza que, com uma pitada de suspense, tornou a leitura viciante, "Um Erro Inocente" é a história envolvente, por vezes terna e muitas vezes chocante, de duas jovens que viram o seu futuro comprometido devido a, lá está, um erro inocente. Achei extremamente interessante a forma como, entrelaçados no presente, a autora nos foi contando episódios do passado das protagonistas, permitindo-nos não só perceber o impacto que o trauma da adolescência teve sempre durante a vida adulta, mas também ver como a culpa infundada continua a perseguir as vítimas tanto tempo depois. Gostei muito e mal posso esperar por começar o "Vidas Adiadas" e reencontrar estas personagens! Muito bom!


Opinião sobre outros livros de Dorothy Koomson:

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Selena Gomez_Lose You To Love Me

terça-feira, 30 de junho de 2020

Opinião sobre "A Bibliotecária" - Salley Vickers

A Bibliotecária
(Artigo de Opinião)


Autora: Salley Vickers
Título Original: The Librarian (2018)
ISBN: 9789898979483
Nº de páginas: 312
Editora: Cultura Editora


Sinopse

    Em 1958, Sylvia Blackwell, recém-licenciada de uma das novas escolas de bibliotecários do pós-guerra, assume um emprego como Bibliotecária Infantil numa biblioteca degradada na vila de East Mole.

     A sua missão é despertar o entusiasmo das crianças de East Mole pela leitura. Mas o caso amoroso de Sylvia com o médico da vila casado e a amizade com a sua filha precoce, o filho do vizinho e a neta negligenciada da senhoria acendem os preconceitos da comunidade, ameaçando-lhe o emprego e a própria existência da biblioteca, com consequências dramáticas para todos.

    A Bibliotecária é um testemunho comovente da alegria de ler e do poder dos livros em mudar e inspirar todos nós.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Cultura Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião
     
      Começo por agradecer à Cultura Editora pelo gentil envio do livro.

    Em "A Bibliotecária", estamos em 1958 e acompanhamos Sylvia, uma jovem bibliotecária que se muda para a pequena vila de East Mole para gerir a secção infantil da biblioteca local. Embora entusiasmada com o seu novo emprego, cedo se apercebe de que a sua missão não será tão fácil como previra, e terá de dar o seu melhor para conquistar os pequenos leitores, enquanto tenta também integrar-se na comunidade - que nem sempre lhe facilita a vida -, e gerir os sentimentos cada vez mais fortes que começa a nutrir por um homem casado.

   Uma das coisas de que mais gostei neste livro foi, sem dúvida, a construção do ambiente e das personagens. Vickers consegue realmente transportar-nos para os espaços que descreve e apresenta-nos as personagens em todas as suas vertentes, tanto as boas como as más, o que só contribui para as tornar mais humanas aos olhos do leitor. 

    O leque de personagens, em especial as crianças - o pequeno Sam e as gémeas Jem e Pam (os novos vizinhos de Sylvia), Lizzie (a neta da nova senhoria) e Marigold (a precoce filha do médico da vila e voraz leitora), tanto dão uma dinâmica muito ternurenta à história, como são desencadeadores de grandes contrariedades e embaraços. A própria protagonista, com apenas 24 anos, sonhadora e ainda algo inocente, é também ela uma personagem de quem é fácil gostar e que inspira simpatia, quer pelo seu amor aos livros, quer pelas suas desventuras. 

     A escrita de Salley Vickers é fluida e fácil de ler, e rapidamente dei por mim embrenhada nesta teia de personagens e tropelias. Agradou-me o facto de que, embora o livro não seja palco de grande ação e a narrativa seja até bastante pacata, ainda assim rapidamente me vi agarrada 
à leitura, ansiosa por ver as novas aventuras de Sam, das gémeas, de Lizzie e de Marigold; as quezílias com alguns dos habitantes de East Mole, e, principalmente, o desenrolar do romance proibido de Sylvia com o médico casado. 

     No entanto, tenho de admitir que um determinado final não me deixou totalmente convencida. Simpatizei tanto com a protagonista - uma rapariga determinada e trabalhadora -, que queria que a autora nos contasse o seu final feliz, mas, na verdade, compreendo a opção de deixar espaço à imaginação do leitor. Ainda assim, sinto que o livro teria ficado a ganhar se esse desfecho tivesse sido um pouco mais desenvolvido.

     Confesso que é sempre um guilty pleasure ler livros que falem sobre livros, e "A Bibliotecária" não foi exceção! Foi uma leitura agradável e despretensiosa, que, apesar de o final não me ter satisfeito por completo a curiosidade sobre a protagonista, ainda assim me deixou um sorriso nos lábios e uma sensação de aconchego no peito. Com personagens tão reais e imperfeitas que poderiam perfeitamente ser os nossos vizinhos do lado, este livro é uma ode ao poder dos livros - principalmente os infantis - e uma reflexão sobre o impacto que as relações - todas elas - têm na vida das pessoas. Gostei!

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Keane (cover de Elsa Roses)_Somewhere Only We Know

quinta-feira, 12 de março de 2020

Opinião sobre "Milkman" - Anna Burns

Milkman
(Artigo de Opinião)


Autora: Anna Burns
Título Original: Milkman (2018)
ISBN: 978-972-0-03206-5
Nº de páginas: 384
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Nesta cidade sem nome, ser interessante é perigoso. A irmã do meio, protagonista deste romance, empenha-se em evitar que a sua mãe descubra a identidade do namorado e em não dar explicações sobre os encontros com o leiteiro. Mas quando o cunhado um descobre a situação e começa o rumor, a irmã do meio torna-se «interessante». A última coisa que queria ser. Porque, nesta cidade, ser interessante implica que te prestem atenção e isso é perigoso.

    Num original misto de inocência e perspicácia, com um estilo único, torrencial e anónimo muito próprio da oralidade, a narradora partilha com o leitor a sua vida, profundamente marcada pela violência física e psicológica.

    Milkman, de Anna Burns, é uma comovente história feita de rumores e falatório, de aceitação e resistência, de silêncio e surdez intencional, que decorre no auge dos conflitos entre as duas irlandas e que espelha o que de pior há no ser humano.


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

       Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

      Em "Milkman", livro vencedor do The Man Booker Prize 2018, não são referidos nomes - nem de personagens nem de locais -, mas são dadas pistas suficientes para que o leitor deduza que a ação se passa nos anos 70, numa Irlanda do Norte dividida e palco de uma atmosfera de grande tensão política, social e religiosa.

   A nossa protagonista é a irmã do meio, uma jovem de 18 anos que gosta de viver nos clássicos da literatura que a acompanham no caminho para casa, que tem "um namorado mais ou menos" - com quem, no entanto, não pensa casar -, e que é suficientemente diferente para ser alvo do apontar de dedo da sociedade.
   
   Quando surge o rumor de que foi vista, em diversas ocasiões, a falar com o "leiteiro", um homem muito mais velho e com ligações a movimentos antigoverno, torna-se o tema das más línguas. E, por mais que seja ela a vítima de assédio e que tente dissipar os boatos criados em torno de si, pois ser o centro das atenções neste tempo é uma coisa perigosa, nem a própria família crê nas suas palavras...

   A partir desta premissa, vamos, pela voz da irmã do meio, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos desencadeados pelo atear do rastilho de maledicência, naquela que é, ainda que dissimulada, uma luta pela sobrevivência e pela liberdade.

    Não nego que, inicialmente, é um pouco difícil entrar nesta história, que nos é contada num registo muito próprio. Recorrendo ao fluxo de consciência, e num tom muito próximo da oralidade, a protagonista vai-nos falando desta cidade onde reina um clima de tensão e desconfiança, onde o pensamento livre é reprimido, onde as pessoas não são tratadas pelos nomes e os boatos sobre quem foge à norma se propagam e ramificam.

  Tudo neste livro implica uma grande atenção por parte do leitor e até alguma capacidade de perserverança. A ação desenrola-se devagar e há múltiplas oscilações no ritmo de leitura: se havia alturas em que avançava bastante, noutras dei por mim a ter de reler várias vezes o mesmo parágrafo para ter a certeza de que tinha percebido tudo, ou simplesmente porque me distraía a meio. Os capítulos grandes, o registo da narrativa - por vezes algo repetitiva -, e a própria estranheza das personagens - com as quais, à exceção da protagonista, é difícil criar uma conexão -, também não ajudam a progressão da leitura, que pode tornar-se algo aborrecida para leitores mais impacientes ou que apreciem um ritmo mais rápido.

    Anna Burns tem um estilo de escrita sui generis, que confere à história um carácter quase intemporal. Com uma linguagem manifestamente erudita, traz-nos uma protagonista claramente à frente do seu tempo, apegada à sua identidade e crente no seu direito à liberdade, que se vê involuntariamente embrenhada numa teia de rumores que vão alterar o equilíbrio precário em que vivia. 

     Não achando que este seja o tipo de livro de que toda a gente gosta, creio que, quem partir para a leitura com uma mente aberta e com um pouco de paciência, vai encontrar em "Milkman" uma história marcante, diferente, por vezes brutal, narrada de forma original e pautada por um humor mordaz e incisivo, e que é um abrir de olhos para uma temática que, infelizmente, permanece atual. Sem dúvida que vale a pena!

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: U2_Sunday Bloody Sunday

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Opinião sobre "A Rapariga Sem Nome" (Agente Especial Tess Winnett #1) - Leslie Wolfe

A Rapariga Sem Nome
(Agente Especial Tess Winnett #1)
(Artigo de Opinião)


Autora: Leslie Wolfe
Título Original: Dawn Girl (2016)
ISBN: 9789898907745
Nº de páginas: 304
Editora: Alma dos Livros


Sinopse

    Os olhos azuis vidrados, o belo rosto, inerte, coberto de cintilantes grãos de areia. Os lábios entreabertos, como que para libertar um último suspiro. Quem é a bela rapariga encontrada ao amanhecer numa praia deserta? Qual é o seu segredo?


   A agente especial Tess Winnett, do FBI, procura incessantemente respostas. A cada passo, a cada nova descoberta, desvenda factos perturbadores que conduzem à mesma conclusão: aquela não foi a única vítima. O assassino que procuram já matou antes.


   Escondendo também um terrível segredo, a agente Tess Winnett enfrenta os seus receios mais profundos, numa emocionante corrida para apanhar o assassino, que se prepara para acabar com outra vida. Descobri-lo-á a tempo? Será capaz de o deter? A que preço?


Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Alma dos Livros em troca de uma opinião sincera


Opinião
     
      Começo por agradecer à Alma dos Livros pelo gentil envio do livro.

    Depois da série da inspetora Erika Foster, de Robert Bryndza, a Alma dos Livros continua a apostar - e bem! - na publicação de thrillers/policiais, trazendo-nos "A Rapariga Sem Nome", de Leslie Wolfe, que vem iniciar a série protagonizada pela agente especial Tess Winnett. Tendo a sinopse despertado o meu interesse, parti para esta leitura bastante expectante, mas, apesar de ter gostado bastante, senti que ficou a faltar algo para que me arrebatasse completamente.

    Uma jovem rapariga é encontrada na praia, nua, em posição de oração, e o seu corpo apresenta marcas de que foi cruelmente torturada antes de morrer. Tess Winnett, uma agente especial do FBI, é destacada para ajudar a polícia local na investigação deste homicídio, mas rapidamente compreende que este não vai ser um caso de fácil resolução. Não há qualquer vestígio que aponte na direção do agressor, mas começa a surgir a forte suspeita de que esta jovem não foi a sua primeira vítima, e de que este poderá tratar-se de um assassino em série.

     Com uma tendência natural para irritar os seus superiores, mas com um histórico impressionante de casos resolvidos, Tess vê-se a braços com esta investigação, que parece ser uma das mais desafiantes da sua carreira, mas que vai também desenterrar um dos seus maiores traumas. Conseguirá apanhar este assassino antes que seja ceifada uma nova vida?

     Uma das  que coisas de que mais gostei neste livro foram os pormenores mórbidos e o planeamento envolvidos nos crimes. Achei os detalhes muito interessantes e fiquei surpeendida com a originalidade do caso. Isso, aliado ao facto de a escrita ser muito fluida, os capítulos serem curtos e o ritmo intenso, fez com que esta fosse uma leitura bastante rápida.

    Tess é uma mulher independente, com uma personalidade forte e vincada e um espírito de desafio, e que parece ter um talento para fazer perder as estribeiras aos seus chefes e colegas de trabalho. Habituada a trabalhar sozinha desde a morte do seu parceiro, e marcada por um acontecimento traumático do passado, Tess tem dificuldade em confiar nos outros e em mostrar o seu lado mais vulnerável, acabando por transparecer uma atitude algo arrogante e desprendida. Confesso que o feitio arisco da protagonista me atraiu, bem como o seu tom sarcástico, e estou curiosa para ver como vai ser esta personagem desenvolvida nos próximos volumes da série.

 No entanto, o enredo tem também alguns pontos que considero menos positivos, e que acabaram por, na minha opinião, afetar o potencial da história. Em primeiro lugar, penso que peca no facto de a identidade do assassino ser revelada demasiado cedo. Gostava que a autora tivesse manejado melhor a questão do suspense, prolongando durante mais tempo a curiosidade de leitor. Para além disso, sinto que havia mais a explorar na construção do assassino. Acho que a parte do método foi bem desenvolvida e achei muito interessante a parte do assassinato propriamente dito. No entanto, ficou a faltar um maior desenvolvimento das motivações do culpado, o porquê de tudo.


    Além disso, sinto que o final foi muito apressado: o contexto foi bem construído, o sumo da trama é cativante, mas a parte chave, da resolução do crime, foi demasiado rápida. E, por último, o factor que menos me convenceu, foi o facto de o segredo de Tess ser revelado logo neste primeiro volume. Sem querer entrar em grandes pormenores, para não correr o risco de fazer algum spoiler, penso que, sendo este o primeiro volume de uma série, a autora podia ter aproveitado melhor esse trunfo - que, na minha opinião, ao ser usado logo neste livro, acabou por retirar alguma a credibilidade à história.

     "A Rapariga Sem Nome" vem estrear esta série protagonizada pela agente Tess Winnett, uma personagem que me parece ter ainda muito para mostrar em livros futuros, motivo pelo qual continuo curiosa para ler o segundo volume, "A Rapariga Que Sobreviveu". Esta é uma leitura rápida, com uma premissa com potencial e um crime interessante, embora não aproveitados ao máximo, motivo pelo qual talvez saiba a pouco a leitores mais experientes no género. Ainda assim, uma boa leitura!

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Dermot Kennedy_Power Over Me

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Opinião sobre "No Escuro" (DI Adam Fawley #2) - Cara Hunter

No Escuro
(DI Adam Fawley #2)
(Artigo de Opinião)


Autora: Cara Hunter
Título Original: In The Dark (2018)
ISBN: 978-972-0-03236-2
Nº de páginas: 368
Editora: Porto Editora


Sinopse

    Uma mulher e uma criança são encontradas fechadas numa cave, em risco de vida.

     Ninguém sabe quem são – a mulher não consegue falar e nenhuma descrição de pessoas desaparecidas corresponde aos perfis das vítimas. O proprietário da casa, velho e muito confuso, jura que nunca as viu.


    À medida que a polícia desespera por pistas, o detetive Adam Fawley recorda-se de um caso antigo, nunca resolvido, que também envolveu uma criança e uma mulher desaparecida. Curiosamente, tudo se passou numa tranquila rua de Oxford. E os moradores estão em choque: como pode tal ter acontecido debaixo dos seus narizes? Mas Fawley sabe que nada é impossível. E ninguém é tão inocente como parece.


     Da autora bestseller Cara Hunter, um romance profundamente inquietante que nos acelera o coração à medida que se revelam segredos há muito enterrados. Afinal, os piores monstros são os que se escondem à vista de todos.

Este exemplar foi-me gentilmente cedido pela Porto Editora em troca de uma opinião sincera


Opinião

      Começo por agradecer à Porto Editora pelo gentil envio do livro.

      Depois de "Perto de Casa", primeiro livro de Cara Hunter, parti para "No Escuro" com expetativas elevadas - que, surpreendentemente, ainda foram superadas! 

     No decurso de um processo de obras, uma parede comum a duas casas geminadas é deitada abaixo, revelando uma jovem mulher e uma criança, em estado deplorável, aprisionadas na cave da casa do lado. A mulher, em estado de choque, não consegue falar, e o proprietário da casa, um homem já de idade e que sofre de demência, jura nunca ter visto aquelas pessoas.

       O inspetor Adam Fawley e a sua equipa veem-se assim a braços com um caso algo macabro, que parece não ter explicação, e que assume contornos ainda mais estranhos quando surge a ligação a um caso antigo, por resolver, que também envolvia uma criança e o desaparecimento de uma mulher.

    Os vizinhos estão incrédulos: afinal, como é possível que uma coisa daquelas tenha acontecido numa rua tão pacata? E como é possível aquela mulher e aquela criança estarem aprisionadas na cave de um homem que vive sozinho e que sofre de demência já há alguns anos? E haverá realmente uma ligação deste caso a algum outro desaparecimento?

     Tenho de começar por dizer que adorei este livro. É, de facto, uma trama muito bem pensada e concretizada, com um caso original e intrigante. Gostei muito de reencontrar Adam Fawley, uma personagem que me conquistou em "Perto de Casa" pela sua vertente sarcástica, e de ver a forma como a autora abordou novamente o lado da vida pessoal do inspetor.

     A escrita envolvente de Cara Hunter é altamente viciante e a forma como a autora desenvolve a trama, num ritmo vertiginoso e com desenvolvimentos novos a cada página que surpreendem continuamente o leitor, tornam esta leitura bastante compulsiva. Sempre que achava ter percebido finalmente a chave da trama, Hunter sacava de uma  nova carta da manga para me deixar boquiaberta. Além disso, é de referir também que a autora mantém o original formato do primeiro livro em que, intercalados com a narrativa, encontramos excertos de notícias, de e-mails e de comentários nas redes sociais, o que, claro,  contribui para dar uma dinâmica interessantà leitura. 

    Não posso deixar de falar no final, que me apanhou completamente de surpresa. Neste livro, a cadência de voltefaces é verdadeiramente assombrosa e tudo culmina para um desfecho nada menos que espetacular, estando sempre presente, durante a leitura, uma sensação de inquietude que quase nos faz espreitar por cima do ombro. E confesso que fiquei "no escuro", até, literalmente, à última página.

     "No Escuro" é um thriller soberbo, muito bem construído, pejado de reviravoltas inesperadas, que agarra o leitor do início até ao final, que mais uma vez, é absolutamente surpreendente. Uma trama magistralmente bem construída, com uma teia de acontecimentos que roça por diversas vezes o macabro e cujo formato é refrescante neste género. Cara Hunter continua a provar ser uma escritora a seguir e espero sinceramente que a Porto Editora continue a publicar esta série, porque é, sem dúvida, uma aposta de sucesso! Recomendo muito!



Opinião sobre outros livros de Cara Hunter:

 Música que aconselho para acompanhar a leitura: Sleeping at Last_Saturn